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Professores Corporativistas

No dia 7 de novembro de 2017, apresentei minha proposta de trabalho de Professor Orientador de Sala de Leitura para ser apreciada pelo conselho da EMEF Nelson Rodrigues. A EMEF tem como diretora minha colega Fabíola Alves que assumiu no começo do ano a direção. A escola tem passado por um processo de democratização das suas relações desde então, dando voz aos alunos e incentivando projetos. Recentemente a escola recebeu o Prêmio Bairros Educadores pelo projeto "Lugar de Lixo não é na Escola" que visava encarar o problema do lixo jogado no entorno da escola, conforme havia constatado pela comunidade escolar em conversas e reuniões. Fui convidado pela Fabíola a participar do processo de seleção na escola por termos visões parecidas de educação e por sabermos ser uma oportunidade de unirmos nossos esforços. A primeira providência que tomei foi ir atrás da anuência do diretor da minha escola para poder assumir o cargo. Depois de algumas dificuldades e diversas conversas, consegui do diretor tal documento. Após terminar o relatório de estágio do curso de Pedagogia, tive uma semana para elaborar a proposta. Perguntei a amigos e conhecidos sobre o trabalho e livros que embasassem a minha proposta de sala de leitura, pesquisei artigos e notícias na internet, e me pus a escrever aproveitando a estrutura de texto que tinha utilizado em uma proposta para Professor Orientador de Informática Educativa na escola que atuo apresentada no começo do ano. A proposta versava sobre a importância da leitura para a democracia na escola e estratégias para formação de uma comunidade leitora. Entreguei minha proposta e inscrição no dia 5 de dezembro, terça-feira, e passei a me concentrar na apresentação da proposta, que visava ressaltar os pontos do meu projeto, além de apresentar minha trajetória como educador e atuador de coletivos culturais.

No dia do conselho, fiz os últimos preparativos e me encaminhei para escola. Havia sido avisado na véspera pela diretora Fabíola que a mesma não poderia comparecer por estar se recuperando de uma cirurgia que não podia adiar. Aproveitei que havia chegado mais cedo para preparar os equipamentos para minha apresentação. As pessoas aos poucos começaram a comparecer para o conselho: as assistentes, a coordenadora, alguns pais e alunos, funcionários professores e os outros dois candidatos. Ao iniciar o conselho a assistente Helena comentou sobre portaria que inviabilizava a candidatura de uma das candidatas, ao que sobrou eu e mais um professor para terem suas propostas apreciadas. Fiz minha apresentação conforme havia preparado com slides e imagens, o professor fez a dele lendo trechos de seu caderno, e nos retiramos para que o conselho pudesse deliberar. O processo levou um certo tempo, e quando voltamos fomos informados que o vencedor havia sido o outro candidato por 5 votos a 4. Cumprimentei a todos e aceitei o resultado, pois não podia ser um defensor da democracia na escola somente quando ela é ao nosso favor. Antes de ir embora a assistente Helena pediu que a esperasse para me falar algo. Me contou que a diretora Fabíola ficaria muito chateada com o resultado, e o que havia sido crucial para tal foi o fato de o grupo de professores terem se juntado para escolherem o outro candidato por ele ser conhecido de alguns deles, por já ter trabalhado na escola. A assistente estava inconformada com o resultado e com a atitude do grupo de professores, porque acreditava que de longe minha proposta era a melhor e era o que a escola precisava no momento, que tentou contra-argumentar sobre a necessidade de se avaliar somente as propostas, mas sem resultado. Voltei para casa bastante chateado, aceitando a derrota e refletindo sobre suas causas e implicações. Mais tarde conversei com a Fabíola através do Whatsapp que também estava bastante inconformada com o resultado e com o corporativismo dos professores, que, na sua visão, haviam agido de maneira análoga ao Congresso Nacional em suas práticas. Também me disse que a assistente Helena ficara impressionada com a qualidade da minha proposta, que havia uma disparidade entre as duas, que uma mãe, ao votar na minha proposta, erguera os dois braços e ao saber do resultado teria dito: perdemos um filósofo. 

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